.:: Letras & Artes ::.

 
por VOVOTÔ @ 26/6/2007 17:16:28
DEVER DE CASA
89 leituras.

Claudinha, como carinhosamente gosto de chamar, é minha enteada. Adotei-a como filha legítima desde que conheci sua mãe Dodora, minha namorada, mais de vinte anos faz.

Dia desses telefonou-me aturdida, pois no colégio do meu neto Lucas tinham pedido um trabalho no qual descrevesse a opinião, a ser obtida através de uma entrevista, sobre o tema A DIFÍCIL ARTE DE LER, e se sentia em dificuldade.

Sabedora do meu interesse em abordar, quando em vez, temas variados sob a forma de crônicas, imaginou – não sem razão - que eu deveria ser um assíduo leitor. Queria uma colaboração no sentido de ajudar a despertar o interesse pela leitura no seu filho.

A primeira idéia que me ocorreu foi adverti-la para a dicotomia sob a qual se pode abordar o ato de ler: o ler por gosto, por prazer, e o ler por dever da escola, este último, uma conveniência legítima, imposta pelo ensino da matéria.

“Gosto de ler, ouvi de uma menina de nove anos, porque me sinto como uma personagem dentro da história que estou lendo”.

Esta frase expressa, claramente, o que entendo por ler por gosto e sugere, de antemão, um dos trabalhos que devem ser feitos junto às crianças e jovens para que se entusiasmem pela leitura. É preciso convencê-los da conveniência e orientá-los no sentido de que, enquanto estão lendo, tentem imaginar-se dentro do enredo, na condição de personagem.

Remonto aos tempos que tinha a idade do meu neto, hoje com quatorze anos, e identifico, de imediato, um dos efeitos colaterais do desenvolvimento tecnológico. Todo benefício tem seu preço. Naquele então, não havia computadores, nem para uso pessoal nem interligados em rede como meio de comunicação - Internet.

Longe de querer significar que o computador destrói, lato sensu, o ato de ler. Muito ao contrário, é por meio dele que me estou iniciando na arte de escrever, logicamente no pressuposto de que terei leitores na rede.

Mas, na idade dos meninos de hoje, são muito mais atraentes os vídeos, os games e os videogames do que a literatura.

Ressalvadas as exceções dos talentos inatos - aqueles em que as tendências cedo se manifestam, neste caso no interesse pela leitura - a regra é começar pela obrigação.

Devo confessar que fui mau aluno de Português no meu tempo de ginásio. Depois, a necessidade de prestar concurso para arranjar trabalho conduziu-me aos assim chamados cursinhos preparatórios. Foi quando nasceu em mim o interesse pela Língua Pátria, no caso, mais gramática que literatura pelo tipo de prova a que teria de me submeter.

Além de ter tido contato com excelente professor começaram, em paralelo, a brotar na minha alma interesses por temas sociais, políticos, filosóficos e ai não tem jeito, ou se lê ou não se forma o cabedal de conhecimentos que precedem à formação de opinião e que, mais tarde, será fundamental no desempenho da arte de escrever.

Vejo a leitura como o melhor caminho para enriquecer o vocabulário já que, num texto razoavelmente culto, haverá sempre palavras novas para nós e nada mais saudável do que fazer-se amigo de alguém a cujo auxílio nunca mais deixaremos de recorrer: o dicionário. O dicionário não só enriquece nosso vocabulário, mas exerce também a função de corrigir significados distorcidos ou equivocados que havíamos atribuído a palavras que entraram nuas no nosso acervo, sem a roupagem do contexto.

Devemos ler de tudo e não será por falta de opção que justificaremos o descaso. Jornais, revistas, livros didáticos (aqui incluídas quaisquer matérias como português – principalmente - história, geografia, filosofia, psicologia, etc.) romances, crônicas, fábulas, mitologia, poesias, cordel, etc. Impensável que uma dessas opções não encontre repercussão numa afinidade subjetiva.

A presente abordagem não tem o menor resquício de ser receita para futuros escritores. No meu entendimento, conseguir que os jovens sigam minimamente os preceitos emitidos serve apenas para que amanhã não se sintam marginalizados no exercício dessa competência-meio que alcança, indistintamente, todas as profissões:
a C o m u n i c a ç ã o.

Se consegui alentar Claudia (e outras mães) no sentido de acreditar num potencial ainda latente dos seus filhos e a usar toda sua habilidosa autoridade no sentido de fazê-los cumprir as etapas básicas para a criação do hábito da leitura, tenho certeza de que este episódio será lembrado, amanhã, com saudável reconhecimento.


Nestor Volpini
(março/2007)


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